MUSEU DO TIETÊ

MUSEU DO TIETÊ: IDENTIDADES E REPRESENTAÇÕES
Por Fausto Henrique Gomes Nogueira


Foto: Sede do Clube Espéria - década de 20 (acervo Clube Espéria)



"...O Tietê deu a São Paulo quanto possuía: o ouro da areias, a força das águas, a fertilidade das terras, a madeira das matas, os mitos do sertão.

Despiu-se de todo o encanto e de todo o mistério:

Despoetizou-se e empobreceu por São Paulo e pelo Brasil".

Alcântara Machado

O Museu do Tietê, inaugurado dia 22 de setembro, nasceu da iniciativa do engenheiro José Bernardo Ortiz, Superintendente do DAEE, cuja preocupação era resgatar a história do mais importante rio do Estado de São Paulo, através da criação de um espaço educativo significativo no Parque Ecológico do Tietê para a compreensão do nosso passado histórico e de sua preservação.

O projeto foi desenvolvido por uma equipe técnica coordenada pelo engenheiro Clóvis R.da Cunha, Chefe de Gabinete do DAEE, e formada pelo historiógrafo Fausto Henrique Gomes Nogueira, o pedagogo Vítor C. Maniero, a fotógrafa Vera Viscardi e a arquiteta urbanista Fabiana Z. Azevedo; além de uma equipe de arquitetos dirigida pela arquiteta Herle C. Bezerra, encarregados da nova sede do Museu.

Nesta etapa, procurou-se levar a cabo uma proposta museológica que demonstrasse a importância do rio Tietê para a história de São Paulo, como via de navegação e como produtor de energia, além das atuais condições ambientais em que se encontram este rio.

Neste sentido, aqui apresenta-se a grande importância de uma instituição desta natureza. Atualmente, torna-se fundamental disponibilizar aos cidadãos informações sobre a nossa história que normalmente não são de fácil acesso; ainda mais em um mundo que presencia de forma contundente a desintegração cultural e a perda de referenciais que nos façam repensar o real, enquanto possibilidade de transformação do mundo. Tudo isto resultado de um desconhecimento de nossas experiências em comum.

Ao mesmo tempo, a instituição escolar também tem encontrado dificuldades para cumprir o seu papel, disputando espaço com os meios de comunicação, cuja característica principal é a emissão de mensagens sem reflexão, na qual o movimento e a quantidade de imagens se sobrepõe ao conteúdo transmitido. Além disso, suas preocupações com o presente imediato e descartável contribuem de forma inexorável para o esquecimento, para o descarte da memória histórica. Neste particular, torna-se fundamental a conscientização sobre as experiências do passado que possam contribuir para a formação de um mundo melhor, mais ético e solidário.

A nossa sociedade baseada em um consumismo desenfreado, e em um mundo tecnológico forjado por ritmos de mudanças em uma velocidade impressionante, faz com que tudo se transforme em passado, mas em um passado tido como algo ultrapassado. O indivíduo, assim, não consegue perceber os relacionamentos com o passado, vinculando nossas experiências às das gerações anteriores, e possuindo vagas perspectivas em relação ao futuro.

O educador, de uma forma geral, possui um número reduzido de espaços culturais que lhe proporcione a oportunidade para a consecução de projetos educacionais que se relacionam com a sua disciplina, no sentido de formar cidadãos críticos e participativos. O resultado disto é um certo sentimento de impotência do professor face às transformações rápidas do mundo contemporâneo, sem poder transmitir aos seus educandos possibilidades práticas de construção do conhecimento.

Neste sentido, o Museu do Tietê apresenta-se como um espaço que visa permitir ao educador o desenvolvimento de um projeto de cunho pedagógico, além de permitir à comunidade o entendimento de questões referentes às nossas experiências em comum.


Foto: Regata de inauguração da Ponte das Bandeiras

É finalidade do museu contribuir para a elucidação do processo histórico através dos objetos dispostos em seu acervo, constituindo-se como um espaço privilegiado para um trabalho multidisciplinar, de memória e de conhecimento. O reconhecimento destes objetos materiais é imprescindível para a compreensão da identidade cultural do indivíduo, um dos pilares da plena realização da cidadania. Desta forma, é importante preservar estes objetos, pois fizeram parte da vida e da sobrevivência dos nossos antepassados, referência para a vida presente.

Torna-se fundamental, portanto, a valorização dos acervos dos Museus, dispostos e organizados em exposições das mais diferentes formas, mas que constituem discursos, algumas vezes, críticos. Os objetos dispostos no acervo podem, em uma primeira leitura, não ter relação nem significado nos dias de hoje; mas o tiveram em outra época e, embora este significado possa ser reconstruído de diferentes formas, é tarefa construir um discurso museológico que forneça ao público o entendimento sobre o nosso passado em comum.

Não pensamos, assim, em um Museu a partir de uma postura conservadora, depositário de objetos de uma época que não mais existe, mas como um espaço criativo e de reflexão. Não podemos, também, pensar em um museu histórico como uma instituição que funcione como complemento da escola; mas sim como forjador de um conhecimento construído historicamente, e apropriado de diferentes formas pela comunidade. Desta forma, este espaço pretendeu contribuir para uma reflexão da História, entendida aqui como uma ciência que nos fornece um instrumental para a compreensão da nossa realidade atual, em suas múltiplas articulações. A História, assim, deve ser apreendida como um processo, fruto do conjunto das experiências humanas, e de suas relações materiais e culturais.


Planta da nova sede do Museu do Tietê; blocos 1, 2 e 3. Projeto da Divisão Técnica de Parques do DAEE

A realização do Museu do Tietê possui, assim, uma função pedagógica ao contribuir para uma educação patrimonial, isto é, um ensino voltado aos bens culturais; uma metodologia que concede a esses bens o ponto de partida de um ensino voltado para a cidadania.

O Museu do Tietê, agrupa uma série de bens históricos como imagens, objetos da cultura material, painéis e utensílios diversos, constituindo-se o acervo a partir de doações de diversos órgãos como o CTH e da reprodução autorizada de obras de arte integrantes de acervos de outras entidades, como Museu Paulista da Universidade de São Paulo, além de fotos provenientes de diversos acervos, como do Clube Espéria, Clube de Regatas Tietê etc.

O Museu, através da organização do seu acervo, pretende demonstrar a importância do rio Tietê para a história de São Paulo e do Brasil, isto é, de como o velho e lendário Anhembi, testemunha de passagens marcantes da história paulista, transformou-se, gradualmente, em um esgoto a céu aberto. As transformações sofridas ao longo dos anos pelo rio Tietê, fruto de um desenvolvimento econômico desorganizado e predatório constituem uma das temáticas privilegiadas no acervo.

Se adentrarmos na trajetória do pensamento de um Melo Nóbrega, (historiador, autor de "História do Rio Tietê") podemos pensar em um rio concebido pela sua lógica própria, agente capaz de interferir no processo histórico, dotado de vontade própria, sendo que muitos outros autores demonstraram esta capacidade do rio Tietê. Neste aspecto, percebemos o Tietê em sua dialética inexorável, que constrói sentido, sendo um personagem, e não mero objeto a ser moldado pela ação racional do homem, em busca de algo que este define como progresso.

O rio Tietê se caracteriza pela sua importância histórica e econômica, ligado às conquistas e à expansão do território brasileiro, pelos bandeirantes; ou então à produção de energia para São Paulo. Representava para os índios via de transporte e meio de subsistência. Embora não fosse importante em um período imediatamente posterior à fundação de São Paulo, tendo o Tamanduateí e o Anhangabaú, uma importância maior, no século XVI e XVII foi a grande via fluvial dos paulistas, "despertando o desejo de conquistas", ou como afirmou Afonso de E. Taunay: "Quando à margem do rio, se puseram pela primeira vez a meditar acerca do curso provável daquelas águas, estranhas e volumosas, que nasciam tão perto do mar e corriam para o interior das terras, que teria ocorrido à mente desses primeiros povoadores do planalto? Para onde iria o misterioso caudal?".

Entretanto, este ilustre personagem também é um ilustre incompreendido. Desrespeitado pela cidade que ajudou a crescer, constituindo-se como local de lazer e de encontro, hoje contribui com as enchentes e a poluição. Entretanto, isto ocorre pois suas margens foram invadidas, esgotos são jogados sem qualquer tratamento, e a cidade culpa o rio como se este fosse o algoz, e não a vítima de um processo de urbanização acelerado e mal planejado. Constantemente notamos que os projetos feitos ao longo do século XX, no rio Tietê, tiveram como preocupação fundamental "domar o rio" sem levar em conta a lógica tieteana. Nos dias de hoje o paulistano não possui uma identificação em relação ao rio. O "mais paulista dos paulistas" é, infelizmente, um vizinho odiado, um inimigo a ser vencido. A falta de memória histórica é uma constante em nossa sociedade. Estas contradições têm um tratamento especial dado pelo acervo do Museu.

VISITAS MONITORADAS


De terça a domingo, das 9:00 às 16:00 hs.

Informações e agendamento:
Fone 2958.1477 com Prof. Vitor

Em 22/09/1999, o DAEE inaugurou as novas instalações do Museu do Tietê, com as condições necessárias para expansão do acervo incorporando outras temáticas.

Cabe destacar que o Museu do Tietê, só teve sucesso graças ao auxílio de uma série de pessoas e instituições, que têm em comum o amor a este grande rio de São Paulo, sem as quais o trabalho seria impossível de se concretizar.

Particularmente destacamos a contribuição do administrador Fernando Silveira Queiroz, diretor do DSD, pelo inestimável apoio; do Prof. José Sebastião Witter, Diretor do Museu Paulista da Universidade de São Paulo – conhecido como Museu do Ipiranga – e da Prof. Miyoko Makino, Diretora de Difusão e uma das maiores especialistas em pinturas históricas, que autorizaram a reprodução das pinturas pertencentes ao acervo daquela instituição; de Jonas Soares de Souza, Supervisor do Museu Republicano de Itú, pelas importantes idéias concedidas; o jornalista Ettore Liberalessu, de Salto, que emprestou fotos referentes à enchente de 1929; Marco Antonio Palermo, que cedeu fotos do seu acervo pessoal; a diretora do Parque Ecológico do Tietê, Eng. Priscilla T. S. Balotta de Oliveira, que nos recebeu gentilmente; aos engenheiros Mário Thadeu Leme de Barros, Antoninho Pereira da Silva e Carlos Loret Ramos, da equipe do CTH que contribuíram na coleta e análise da água proveniente do Tietê, além da doação de equipamentos e das informações pertinentes aos mesmos. O Clube Espéria nos auxiliou com importantes imagens, através do responsável do Arquivo Histórico, André, permitindo a reprodução de suas fotos. O sr. Max, do Clube de Regatas Tietê, nos propiciou um raro entendimento sobre o período das regatas. O Museu, portanto, é obra coletiva e desinteressada de uma série de pessoas que tem em comum o amor a este grande rio de São Paulo.

Fausto Henrique Gomes Nogueira: mestrando em História da Cultura pela USP, colaborador do projeto Cultura e Cidadania/DAEE, e historiógrafo do Museu do Tietê.

Fonte: DAEE -  http://www.daee.sp.gov.br 

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