Ruy Ohtake

Fonte: Revista Veja - Edição 1159 - 5 de dezembro de 1990

Prancheta mágica
Com uma obra calcada em mais de 400 projetos, Ruy Ohtake se firma como o arquiteto mais requisitado do país

O arquiteto paulista Ruy Ohtake é o Oscar Niemeyer da iniciativa privada.
Como o mestre das esculturas habitáveis, monumentos públicos que cativam os olhos mas maltratam seus moradores, Ohtake é um amante das linhas curvas que desafiam as leis da física. Ao contrário de Niemeyer, no entanto, ele projeta casas e apartamentos cuja arquitetura gira em torno do bem-estar das pessoas que eles vão abrigar. Aos 52 anos, esse filho de uma artista plástica famosa, a pintora Tomie Ohtake, conseguiu firmar uma reputação sem igual no Brasil.
Com 401 projetos realizados - entre eles 57 edifícios -, Ruy Ohtake tornou-se o mais produtivo arquiteto brasileiro de todos os tempos e um dos poucos capazes manter-se fiel a uma fórmula original de construir habitações. Ele criou uma espécie de prêt-à-porter da moradia nas grandes cidades brasileiras. Um prédio com sua griffe tem venda garantida e há casos de edifícios vendidos integralmente num único dia. Obras suas estão fincadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia, Porto Alegre e Belém e, pelo ritmo frenético de trabalho de seu criador, dão sinais de que vão continuar a se espalhar pelo país.
"Ohtake é um dos melhores arquitetos do Brasil", avaliza o patriarca Niemeyer. "Seu trabalho se identifica com o meu, já que nós dois procuramos seguir o mesmo caminho de liberdade plástica." Em trinta anos de atividade, Ohtake conseguiu que sua obra transpusesse as fronteiras do país. São de sua autoria, por exemplo, o prédio da embaixada brasileira em Tóquio e o Club de Las Américas, um empreendimento hoteleiro de um grupo americano cuja construção está sendo iniciada em São Domingos, a capital da República Dominicana. Ohtake não esconde a admiração que devota a Niemeyer, pai da moderna arquitetura brasileira. Na parede de entrada de seu escritório, no 12º andar de um prédio encravado no coração do elegante bairro dos Jardins, em São Paulo, mandou inscrever uma frase do mestre: "Não é o ângulo reto que me atrai, e sim a curva livre e sensual".
Ohtake segue esse ensinamento ao pé da letra no que diz respeito à aparência externa de seus edifícios. Adora assentá-los sobre pilotis e costuma deixar enormes vãos livres ao seu redor. Como Niemeyer, usa e abusa do concreto armado para moldar curvas sinuosas ousadas. "Nunca escondi que Niemeyer é meu ídolo", diz Ruy Othake.

ALMOÇO DE ARTE - Ele seria 1embrado apenas como um copista criativo de Niemeyer, não tivesse encontrado uma fórmula bastante própria. Ohtake constrói habitações confortáveis e as emoldura numa fachada modernista agradável à vista. Nierneyer nunca se preocupou muito com os moradores de suas obras. O Palácio da Alvorada, a residência oficial dos presidentes da República do Brasil, que ele construiu em Brasília, conseguiu desagradar a todos os ocupantes do cargo, sem exceção. Nos apartamentos, por exemplo, Ohtake gosta que as pessoas circulem pela casa e não se restrinjam a apenas uma área específica.

Para isso, adota um esquema básico: coloca os quartos numa extremidade da residência, a cozinha na outra e uma grande sala de estar no meio ou realizando uma interligação lateral. Ohtake se recusa a fazer o mesmo que muitos arquitetos de hoje: dividir as salas entre locais de estar, jantar e leitura. Nos seus projetos não há ambientes íntimos, ele evita escritórios, por exemplo. As janelas são amplas, quase sempre terminam num espaçoso terraço, que circunda e envolve o apartamento. "Incentivo as pessoas a usar o apartamento por completo", diz o arquiteto. "Nas minhas casas as pessoas se sentem bem, nunca se sentem aprisionadas."
Ohtake confirma o dito popular de que filho de tigre nasce pintado. Da mãe, Tomie Ohtake. a grande pintora moderna do país, herdou o gosto pela. experimentação e a capacidade de trabalho. O ambiente doméstico certamente favoreceu a sua formação.
Quando criança, Ohtake brincava com os pincéis e as tintas da mãe. Seu único irmão, Ricardo, atual presidente do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, também é arquiteto. Tomie até hoje exerce influência sobre o filho - e vice-versa. Aos domingos, a família se reúne à mesa da casa da atual dama da pintura brasileira para almoçar e conversar. Ohtake, descasado pela segunda vez, aparece com seus dois filhos, Elisa, 11 anos, e Rodrigo, 6 anos, e o irmão, Ricardo, quase sempre com a namorada. A casa, no bairro paulistano do Campo Belo, foi projetada por Ohtake. "É belíssima", orgulha-se Tornie. "Gosto especialmente da lareira suspensa que existe no centro da sala. Ela às vezes chama mais a atenção das visitas do que meus quadros." O almoço é de arte. "Passamos o tempo todo conversando sobre nossas criações", diz Ohtake. "Minha mãe sempre me mostra os seus novos quadros." Filho e mãe têm uma famosa obra conjunta. Há seis anos, Ohtake projetou um prédio no valorizado bairro de Vila Nova Conceição, em São Paulo. Para uma das paredes edifício, Tomie concebeu um enorme painel. De cada terraço do edifício se enxerga uma parte da obra. O prédio, batizado de Tomie Ohtake, teve todos os seus doze apartamentos de luxo vendidos no dia do lançamento.

LIQUIDEZ E ESTILO - Outras obras de Ohtake tiveram êxito semelhante. Recentemente, uma construtora paulista encomendou a onze arquitetos famosos o projeto de um edifício, a Torre São Paulo. Cada um deles se responsabilizou por um pavimento - o prédio terá um apartamento por andar. No mês passado, foi vendido o primeiro apartamento da Torre São Paulo. Autor de seu projeto: Ohtake.
A embaixada brasileira em Tóquio (acima) e o parque The Wawes: traço inovador

O Banespa, em Goiânia: beleza de concreto

Suas obras têm liquidez e estilo.
"Ohtake é hoje quem melhor sintetiza a arquitetura contemporânea brasileira, inaugurada por Niemeyer", afirma Paulo Mendes da Rocha, ex-presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasll, o IAB, e um dos autores do projeto da Torre São Paulo.
Ohtake costuma ser enquadrado, talvez erradamente, na chamada "corrente racionalista", que teve em Niemeyer o seu mestre-escola nacional. Seus preceitos nortearam o projeto de Brasília, por exemplo. Segundo a corrente racionalista, o arquiteto primeiro faz o projeto e depois se preocupa em adequá-lo às pessoas que vão ocupá-lo. "É a força da arquitetura imposta ao usuário", diz Márcia Cristina de Oliveira, professora de História da Arte e de Arquitetura da Universidade Mackenzie, de São Paulo. Essa corrente foi inaugurada pelo suíço Le Corbusier, nos anos 20. No Brasil, um dos primeiros edifícios dessa escola é o o prédio do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, inaugurado na década de 40. Seu projeto foi assinado por Le Corbusier. Até então, o que existia no Brasil era uma arquitetura "eclética". Morar bem no país já foi copiar velhos estilos europeus do século passado ou misturar sem critério o despojamento do modernismo da Bauhaus alemã com a nostalgia art nouveau. Esse racionalismo, quando mal utilizado, se transforma num presídio, uma espécie de gaiola de ouro que serve aos gostos estéticos dos seus criadores. Ohtake seria um racionalista com convicções humanistas, pois pensa e muito nos moradores de suas obras.

ATRAÇÃO FATAL - O sucesso de Ohtake reflete um momento de maturidade da arquitetura brasileira. Ele pode seguir os postulados do racionalismo, mas está longe de ser um ortodoxo. Seus projetos, ao se materializarem no papel, já surgem pressupondo algumas regras de bem estar que, além de distinguir a sua griffe das demais, constituem uma atração fatal para sua cada vez mais numerosa clientela. A valorização das áreas de estar leva Ohtake a conceber quartos pequenos - num estilo de influência assumidamente japonesa, em que o importante é a área social da residência. Essa característica, embora não seguida, é aplaudida até mesmo por seus rivais. "Ohtake é um dos mais criativos arquitetos da atualidade", afirma o paulista Carlos Bratke, também ele um mestre do concreto armado, autor de uma série de prédios de arquitetura arrojada e cores fortes que emolduram a Avenida Luiz Carlos Berrini, na Zona Sul de São Paulo. Bratke, formado há 22 anos, foi aluno de Ohtake na Universidade Mackenzie, no começo da década de 60que ali lecionou projeto durante três anos. O patrulhamento ideológico o afastaria da cátedra. Homem de esquerda, hoje ligado ao PMDB de Orestes Quércia, Ohtake foi dispensado da Universidade Mackenzie em 1964 acusado de haver visitado Cuba um ano antes. Ruim para a escola, bom para ele. Sem o compromisso com a faculdade, Ohtake pôde dedicar tempo integral ao escritório de arquitetura, que no ano passado faturou 200 000 dólares, segundo ele, ou l milhão de dólares, de acordo com indiscrição de seus colegas. No escritório de Ohtake há 25 funcionários, entre os quais seis arquitetos, mas toda a criação sai mesmo da cabeça do chefe."Para mim, a arquitetura é obsessão e prazer", define Ohtake. Trabalha inclusive nos sábados e feriados. Não tem hobbies, lê pouco e não lembra o último filme que viu. Na televisão, assiste a programas humorísticos e dá gargalhadas quando vê a Escolinha do Golias. Ohtake parece não ter tempo para coisa alguma que não seja a arquitetura. "Ele já cansou de ver o dia nascer da janela de seu escritório", diz a atriz Célia Helena, com quem o arquiteto foi casado por pouco mais de um ano e com quem teve a filha Elisa. "Meu verdadeiro casamento é com a arquitetura", afirma Ohtake, que teve ainda um relacionamento relâmpago com a arquiteta Silvia Vaz, mãe de seu segundo filho, Rodrigo. "Penso no projeto que estou fazendo até debaixo do chuveiro", diz ele. O estímulo parece ser produtivo. Entre outras obras famosas, Ohtake projetou a sede do Banespa - o Banco do Estado de São Paulo, em Goiânia, em 1977, um marco na arquitetura da cidade, o Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, em 1979, com o qual ganhou, naquele ano, a Bienal de Arte de São Paulo, e o pavilhão do Brasil na Expo-90, a grande feira internacional de indústria em Osaka, no Japão. Na terra de seus pais, que imigraram para o Brasil na década de 30, Ohtake acaba de receber uma consagração simbólica. Todos os pavilhões internacionais construídos para a Expo-90 serão demolidos depois da exposição, encerrada em agosto.O único que ficará em pé será o que foi projetado por Ohtake. O pavilhão do Brasil tem a forma de um "esse" ondulado, deitado no chão. Os japoneses acharam que seria uma pena colocá-lo abaixo. Até um moderno parque aquático saiu da prancheta de Ohtake - o The Waves, que será inaugurado este mês na Zona Sul de São Paulo. Cores fortes, piscinas sem uma forma definida e com ondas artificiais, tubos coloridos servindo de tobogãs que vão dar nas suas águas identificam facilmente a mão criadora de Ohtake."Fiquei satisfeito com o resultado", afirma o empresário Herberth Bongiovanni, diretor-superintendente da Mentha, a multinacional suíça de plásticos que é dona do parque. "Ohtake conseguiu aliar criatividade e funcionalidade, de uma maneira espantosa." Nemn todos os clientes do arquiteto, porém, têm uma opinião totalmente favorável. A Encol, a maior construtora de prédios do Brasil, contratou Ohtake para realizar seis projetos. Os primeiros cinco lançaram a empresa, que tem sede em Brasília, no universo imobiliário de São Paulo. Um dos projetos é o Portal da Cidade, um condomínio fechado, num terreno de 26.000 metros quadrados. "Sempre que entramos em uma cidade, contratamos um grande arquiteto da praça" diz Azeu Ramos Neto, diretor de projetos da empresa. Mas a Encol se queixa de Ohtake."Apesar de competente, o seu estilo plástico colide com os nossos interesses", afirma Ramos Neto. "Ohtake cria prédios com detalhes exclusivos e não leva em conta os manuais que elaboramos para a redução de custos, como por exemplo a padronização de esquadrias, portas e terraços. Ele é bom para trabalhar, mas para o governo, que não leva em conta esses detalhes nas suas obras".

PÉSSIMO EM MATEMÁTICA - Consagrado pelos moradores de suas obras, Ohtake é um colecionador de prêmios. Em 1963, ele ganhou a Bienal de Arquitetura com o projeto do laboratório Aché de São Paulo. No ano seguinte, ainda com pouco tempo de carreira, o IAB o distinguiu como o "arquiteto do ano". A honraria que Ohtake recorda com mais carinho, no entanto, foi a obtida com a casa da empresária Emília Okubo, no bairro paulista do Brooklin. Com o seu projeto. ele venceu o Salão lnternacional de Arquitetura, de 1965. Na casa, Ohtake mostrou pela primeira vez as linhas curvas com as quais faz sucesso. "Não saio daqui por nada. O ambiente é amplo, agradável, bonito e me faz sentir muito bem", afirma Emília.
Quem vê o sucesso de Ohtake poderia imaginar que ele foi um daqueles alunos brilhantes, o orgulho dos professores e a inveja dos colegas, que saem da faculdade cobertos de láureas e bons presságios. Nada disso. Formado em 1960, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Ohtake nunca passou de um aluno mediano. "Nunca fui bom nas matérias técnicas, como, por exemplo, em "Resistência de Materiais", confessa ele. Certamente teria sido o melhor aluno da classe se houvesse a disciplina Leveza de Materiais.

Fonte: Revista Veja - Edição 1159 - Ano 23 - nº 48 - 05 de dezembro de 1990

Imagens pela seqüência: Antonio Milena; arquivo Ruy Ohtake; Eduardo Albarello; arquivo Ruy Ohtake; André Penner; Luiz Calazans; Jorge Rosenberg/fotograma

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