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A ex-nadadora
Odete Marsala Lagonegro não precisa remexer muito na memória. As
lembranças do Rio Tietê logo aparecem, os prazeres da juventude.
“Eu nadava nas águas do Rio Tietê. Ele era muito branquinho, e a
água era maravilhosa. Vinha muito peixe. Era um rio
maravilhoso”, conta Odete. Testemunhos assim só mesmo os tirados
das recordações.
As águas do Tietê, rio que percorre 1,1 mil quilômetros no
estado de São Paulo, carregam um triste título: estão entre as
mais poluídas do mundo.
“Eu sinto pena do rio e de nós que perdemos um grande rio”,
declara o ex-remador do Tietê Angelo Calábria.
Na capital, o mau trato da cidade está bem à vista, sem
disfarce. Há mais de 15 anos, procura-se pela recuperação da
saúde do rio. O tratamento é caro. Já foram gastos mais de R$ 3
bilhões.
E por que esta poluição é tão desafiadora? Para buscar a
resposta, o Globo Repórter foi até à Universidade de São Paulo.
O professor e engenheiro Mário Thadeu Leme de Barros, da Escola
Politécnica da USP, é mestre em engenharia hídrica e sanitária e
um grande conhecedor do problema.
“Todos os rios aqui da cidade de São Paulo, tendo em vista esse
lançamento excessivo de esgotos nas suas águas, estão mortos”,
afirma o professor.
Pobre Tietê. Quem acreditaria que as suas águas também são
consideradas as mais limpas do Brasil.
No alto da Serra do Mar, a 1.027 metros de altitude, a 120
quilômetros da capital paulista, nasce o Rio Tietê. A água brota
cristalina, em plena Mata Atlântica, e segue seu curso para
abastecer toda a região metropolitana de São Paulo. São 39
municípios, onde moram 18 milhões de pessoas.
Gastão Gonçalves é paulista, um dos guardadores do Parque de
Nascentes do Tietê, que fica em Salesópolis. Ele conhece cada
uma das espécies que moram no local.
“A gente vê a aranha d'água exatamente no espelho d'água, na
membrana superficial da água, nadando em cima. Ela é indicadora
de água de boa qualidade. Mais à frente, vemos a mãe d'água, um
elemento que só surge em águas de boa qualidade, águas limpas”,
informa diretor do parque Gastão Gonçalves.
“A mãe d'água é um besouro que vai comer as larvas de outras
insetos, de micro-organismos, fazendo o equilíbrio desse
ambiente aqui. É uma água que pode ser bebida in natura”, aponta
Gastão Gonçalves.
Da pequena nascente, o Tietê segue limpinho. No início, por um
córrego tímido, mas vigoroso. Mais adiante, ele cresce e se
torna abundante. Parece uma serpente fazendo curvas pelo meio do
verde.
No entanto, dura pouco a pureza destas águas. Cem quilômetros
depois, em Mogi das Cruzes, o rio já não é mais o mesmo. A
poluição começa a mostrar a sua força. Foram décadas de lixo
industrial, esgoto doméstico, desaguando no Tietê.
“É um processo que leva uma carga de matéria orgânica muito
grande para o rio, e a decomposição dessa matéria orgânica
consome o oxigênio dissolvido na água. Por isso, o rio morre”, a
engenheira ambiental Mônica Porto, da Escola Politécnica da USP.
O Globo Repórter convidou engenheira ambiental Mônica Porto para
um sobrevoo por São Paulo. Acompanhar o curso do rio é uma
triste constatação. É difícil de acreditar na paisagem vista do
alto. No centro da cidade, são poucos os lugares onde não há
todo tipo de lixo. As tubulações lotadas de esgoto jorram sem
parar.
A cada segundo, circulam pelo Rio Tietê 80 mil litros de água. A
metade, 40 mil litros, é de esgoto despejado pela população que
rodeia a maior cidade do Brasil. E o resultado é a imagem de uma
espuma branca e espessa na água.
Às vezes, tem-se a impressão de que o rio foi invadido por neve,
uma neve perigosa.
“Nos pontos de despejo, quando a água cai, a turbulência revolve
e forma a espuma. A origem dela é o detergente doméstico, o
sabão de lavar roupa, o detergente de cozinha e da máquina de
lavar-louça. Todos os detergentes formam a espuma, quando o
esgoto é lançado sem tratamento”, explica a engenheira ambiental
da USP.
Na saída da Estação de Barueri, ainda há espuma. “Mesmo o
tratamento de esgoto tem dificuldade de remover toda a
quantidade de detergente”, aponta Mônica Porto.
Na barragem de Bom Jesus de Pirapora, na região metropolitana,
construída para auxiliar na produção de energia elétrica para
São Paulo, é possível constatar que a força maior é a da
poluição desmedida.
Na margem, há lixo acumulado, o que é um problema muito sério.
“É um problema que a população tem uma responsabilidade muito
grande por todo o lixo que é lançado nas ruas da cidade vai
parar aqui (na barragem de Bom Jesus de Pirapora). Então, uma
latinha de bebida que a pessoa toma e joga pela janela do carro
ela está aqui”, afirma a engenheira ambiental da USP.
Mas o que cada paulista pode fazer para devolver saúde ao seu
rio maior? Segundo os especialistas, três pequenas medidas
ajudariam muito: usar sabão e detergentes biodegradáveis, não
fazer rede de esgoto clandestina e, principalmente, não jogar
lixo nas ruas e nas águas.
Quem maltrata mais o Rio Tietê? “A principal fonte hoje de
poluição do esgoto dos rios é o esgoto doméstico”, ressalta o
engenheiro Mário Thadeu Leme de Barros, da Escola Politécnica da
USP.
Para o professor, o Rio Tietê sofre as consequências de outros
grandes problemas: as ligações clandestinas, os vazamentos das
tubulações de água e de esgoto e o lixo das ruas que vai para
dentro do rio. É a chamada poluição difusa. Nos períodos de
seca, o asfalto acumula restos de pneus, óleo, gasolina e metal
pesado. Quando chove, tudo é carregado para dentro do rio.
Ao se olhar de cima, parece que não tem mais jeito e que o rio
morreu.
“Não sou tão pessimista. Acho que alguém ainda daqui a alguns
anos vai ver esse rio limpo, se os esforços para tratamento
continuarem como eles vêm já sendo feitos há 15 anos. Eu espero
que daqui a 15 ou 20 anos isto esteja muito melhor do que está
hoje”, acredita a engenheira ambiental Mônica Porto.
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